As Inscrições Ruprestes
CompartilharDISCUSSÃO ACERCA DA DENOMINAÇÃO
“ARTE RUPESTRE”
Durante a escritura das páginas anteriores, evitou-se seguidamente uma espécie de vício que se estabeleceu entre os estudiosos ao se deparar com gravuras pertencentes à cultura material de um grupo pré-histórico. Tomou-se um extremo cuidado em não se usar o termo “arte” para tais inscrições. Não se conclui desta forma que não se configuram como objetos artísticos, mas se considerou pertinente primeiro analisá-lo, para depois julgar sua validade.
A interpretação lançada sobre o objeto determinará a natureza do teor semântico presente em sua forma. Em arte, havendo a configuração de uma forma, consequentemente haverá a atribuição de um conteúdo, mesmo que este último seja por vezes exatamente a sua negação, como a modernidade explicíta de modo desagradável em certas ocasiões. Este conteúdo estará submetido a sua época que consagrará determinados estatutos para apontar o que será e o que não será objeto artístico. Jorge Coli escreve sobre este assunto: “(…) o ´em si´ da obra de arte não é uma imanência, é uma projeção. Somos nós que enunciamos o ´em si´ da arte, aquilo que nos objetos é, para nós, arte” (COLI, 1981, pg. 64). O “nós” pronunciado por Coli, será sempre um sujeito de época e assim condicionado por ela. O exemplo mais extremo desta idéia se apresenta nas inscrições rupestres. Os olhos modernos, impossibilitados do conhecimento do conteúdo proposto pela forma, as adjetivam livremente como obras de arte, quando o objetivo de algumas dela poderia estar distante disto. Radicalizando esta idéia poderia se postular o absurdo de se conferir significados, como o fez Bednarik (1994): “A maioria dos estudos de paleoarte têm sido exercício de empirismo ingênuo”. A interpretação sobre as inscrições rupestres pode chegar a formular idéias até mesmo imponderáveis ao homem que a confeccionara.
A questão do “Ferro Elétrico”
A porção norte da Ilha do Campeche abriga uma excêntrica formação rochosa, composta por granito (a rocha maior) e diabásio. Trata-se do “ferro elétrico” (ver fotos 22 e 23), como é costumeiramente designado pelos guias e pela gente local. O caráter excepcional se faz no desnorteamento magnético que ocorre sobre a rocha de diabásio. Ao se repousar uma bússula sobre esta, dar-se-á um desregulamento no ponteiro, levando-a a apontar para a direção noroeste-sudeste.
Um fenômeno único dentro da ilha (pelo menos o que até hoje se verificou), contudo recorrente em diversos locais do mundo. Uma acumulação de metais dentro da rocha pode promover tal façanha contra a rigidez da bússula. Entretanto, o motivo deste relato não é de fundamento físico ou químico, que neste caso são apenas ferramentas para a compreensão da questão, mas sim pelas inscrições existentes sobre a rocha de diabásio. Gravou-se sete retas paralelas que coincidem exatamente com o sentido do desnorteamento noroeste-sudeste. Isto acaba por remeter à delicadas indagações que serão aqui realizadas. Porém, que desde já fique exposto a fragilidade de tais altercações que se basearão numa perigosa partícula: “SE”. Se os povos antigos, através de alguma forma desconhecida atualmente conseguiram desvelar a natureza extraordinária do magnetismo do “ferro elétrico”, isso os teria causado alguma comoção a ponto de terem gravado sete retas incidentes sobre o desnorteamento magnético. Comoção no sentido de que o “ferro elétrico” teria passado a fazer parte do cotidiano da ilha ou adquiriu alguma função dentro do modo de vida que lhes era característico.
O interessante de se observar então é o novo aspecto que estas sete inscrições retilíneas tomam perante aos olhos modernos. Sem estas considerações, tratar-se-iam apenas de mais uma das mais de uma centena de gravações existentes na ilha. Todavia, assumem uma condição diferenciada, já que passam a portar o conteúdo de sua forma. Dentre os petroglifos da Ilha do Campeche, observa-se em todas o resquício da forma, enquanto o conteúdo perdeu-se em meio ao emaranhado de dúvidas provocado pelo tempo e pela falta de pesquisas. Eis que talvez se esteja diante da primeira inscrição portadora de forma e conteúdo dentro do acervo da ilha. Este conteúdo seria unicamente informativo, complicando o imperativo artístico designado pela interpretação moderna.
Aspecto informativo
Para ilustrar melhor esta situação do “ferro elétrico”, dar-se-á um exemplo ilustrativo. Tome-se uma placa de trânsito, escolhendo-se ao acaso a placa de regulamentação que indica “siga reto”. Que o tempo passe, anos, décadas, séculos, milênios. Percorrido este longo espaço de tempo, em algum lugar do mundo, um habitante humano futuro ao acaso encontrará esta placa – que há muito já havia sido abandonada e esquecida pela “história” – conservada em um nível arqueológico. Poderá este homem olhá-la e conclamar em êxtase: “Oh, que belo objeto os primitivos já faziam! Que simetria, que disposição geométrica!” Bem como poderá simplesmente desprezá-la como se fazia antes do século XVIII, quando a arqueologia passou a valorizar os resquícios antigos. Ou mesmo este mero trabalho monográfico, se de alguma forma for conservado a um longínquo futuro, alguém poderá tecer comentários dionisíacos e apolíneos sobre a disposição central dos caracteres na folha alcançada pelo “artista”, ou mesmo pela engenhosa encadernação que envolve elementos elementos circulares pelos quais uma espiral os penetra primorosamente. Tanto a intenção da simples placa de trânsito quanto deste trabalho são primordialmente informativas, mesmo que algum sentido de estética esteja presente em ambos. O mesmo poderia ocorrer com as inscrições rupestres.
Aspecto Artístico
É certo que o homem pré-histórico produzia suas inscrições “artísticas” com sentido distinto ao do homem contemporâneo. O isolamento temporal possibilitou o alcance desta possibilidade de diferenciação. Hoje, pensar em arte já invoca uma série de preceitos quase que homogeneizados no mundo moderno. Contudo, o plasma fundamental de um dos requisitos de uma projeção artística está presente em ambos os períodos. O desejo de eternização da imagem, seja a serviço do belo ou da informação, evade os sentidos interpretativos lançados sobre a forma, fixando-a como instrumento narrativo.
Texto : Fernando C. Boppré
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